Olavo se lembrou de uma cena: Estava quase na hora, o ônibus saia às 18h e ele teria que correr para embarcar a tempo. O ponto mais próximo ficava a 6min (andando devagar), então teria que se apressar para chegar nos 4min que faltavam. Recolheu apressado o caderno, conferiu se estava com a carteira no bolso e saiu apressando, avisando num grito que estava saindo.
Ao ganhar a rua, sentia o vento frio atravessando seu cabelo úmido que lavara na pressa do tempo que tinha entre chegar do trabalho e correr pegar o ônibus para a escola.
Apertou o passo e foi tentando ganhar tempo no trajeto, fazendo o melhor caminho possível nas ruas e calçadas que levavam ao ponto do ônibus e ao chegar perto desse, notou que o motorista já estava ligando o motor; teve que correr. Cansado e desmotivado ele adentrou no seu transporte, que na verdade não era seu, era coletivo. Levava 40min até a escola e era um transe da partida ao destino. Como era o ponto inicial, sempre tinha lugar para sentar, podia muitas vezes escolher onde. Era comum, logo em seguida, um estranho qualquer sentar ao seu lado. Muitos pediam licença, outros não, alguns sentavam quase no seu colo, outros sentavam na pontinha do banco, parecendo tentar não incomodá-lo. Tinha de tudo: Da garota que ele fitava no canto dos olhos ao mendigo que lhe dava náuseas. Tinha também as vezes que ele ia de pé para dar lugar a alguma senhorinha espremida no corredor ou a uma mamãe como o filho no colo.
Independente da companhia, logo ele se desligava do mundo material, mergulhava em suas lembranças do dia, suas responsabilidades ou até mesmo em seus sonhos futuros e se deixava levar no chacoalhar do ônibus à escola. E cada viagem era uma história, era um entrelaçar de variáveis, de cheiros de cores e de conversas estranhas. – Por mais que não fosse bisbilhoteiro, era impossível no coletivo não ouvir conversa alheia, das mais belas as mais bizarras. – Apesar de serem desconfortáveis essas viagens eram boas (com aspas?) quando eram somente desconfortáveis em sua rotina, pois quando essa era quebrada, era de doer. Teve vez que tiveram todos que trocar de ônibus, pois o mesmo quebrou no caminho, noutra o motorista teve que desviar totalmente o caminho, porque tinha gente tendo convulsão e o motorista levou ao hospital, outra vez o ônibus com todos os passageiros dentro foram revistados pela polícia.
E apensar dessa distancia toda, dessa aventura diária, ficava feliz que na ida o ônibus barulhento, espremido e desconfortável passava perto de sua casa e o deixava na porta da escola, porque na volta tinha que andar 20min até o ponto mais próximo e esperar mais sabem quantos até o algum ônibus que lhe servisse, passasse por ali.
Olavo teve que se recompor do devaneio que teve quando andava ao chegar no endereço que procurava. Estava indignado porque só conseguira estacionar a 3min da padaria onde tinha ido comprar pães para um lanche da tarde.