Penélope perdera há duas semanas sua carona diária para a faculdade, na qual cursava o terceiro ano de Pedagogia. Não se importou muito, a carona nem era tão boa mesmo. Leônidas, o moço do carro vermelho que a levava vivia impaciente para ir embora nas quartas de noite, no horário do futebol e nesses dias, Penélope tinha que escolher o que perderia: A carona ou a matéria. No final das contas escolheu mesmo ir de ônibus; como era estudante, pagaria só a metade da passagem. Para poder usufruir dessa vantagem, bastava pedir um comprovante de matrícula que custava R$ 5,00.
Dois dias após recolher a taxa, ela foi na secretaria de protocolo pegar o seu comprovante e ao fazê-lo, percebeu no documento que seu endereço estava errado. Com um sorriso no rosto e o papel na mão, Penélope se dirigiu à secretaria e disse:
- Boa noite, meu endereço está errado nesse documento.
A secretária, com cara de robô de última geração com cinqüenta respostas prontas no banco de dados responder:
- Posso abrir um pedido de alteração de endereço.
- Por favor, faça isso, tenho pressa para pegar esse documento.
- Tudo bem, preencha esse formulário e recolha a taxa de R$ 5,00 na tesouraria que que atualizaremos o seu cadastro.
- Mas eu devo pagar para corrigir um erro que foi cometido por vocês?
- Infelizmente. E depois pagar mais R$ 5,00 para pegar o comprovante de matricula com o endereço correto.
- Mas não justo!
- Sinto muito, mas eu só sigo ordens.
Ainda com ar de incrédula, Penélope saiu segurando seus protocolos nas mãos e se pois a pensar: “Se eu pago a matrícula, porque preciso pagar para ter um atestado de matrícula”? E em meio a sua cólera pensou: “A culpa é toda minha. Enquanto estava apenas nos R$ 5,00 não tinha problema, agora que já são R$ 15,00, passei a questionar cada R$ 5,00”. E as reflexões continuaram: “Se todo mundo reclamasse, não chegaria a esse absurdo, mas aí lembrou que seria mais fácil para seus amigos, estudantes de classe média, pagar a quantia do que perder tempo discutindo esse assunto”. Mesmo assim, num momento Che Guevara resolveu levar sua revolta adiante e ao encontrar seu amigo Marcos, começou um bate-papo para explicar sua revolta, na esperança de fazer um aliado.
Oito minutos e muita argumentação depois, ouviu sair da boca do amigo:
- Você quer que eu te empreste os R$ 15,00?
Com um sorriso amarelo e engolindo sua decepção a seco, Penélope foi ver o quadro de notas e faltas, exercício de mera conferencia, pois era ela uma garota de boas notas e poucas faltas. Para sua surpresa, deu de cara com uma reprovação! Motivo: Faltas.
Correu na sala dos professores; esbaforida e desanimada, onde encontrou o Professor Eurídes, responsável pela disciplina que a reprovara.
- Professor, por que estás me reprovando por faltas?
- Oi querida, imagina, você sempre vem às minhas aulas.
- Mas no quadro de notas e faltas consta que estou reprovada, o Senhor pode corrigir isso?
- Claro! Basta você pedir na secretaria um protocolo de revisão de faltas.
Sem se despedir, Penélope saiu imaginando seu vigésimo real sendo queimado.
Subiu os dez degraus (que pareciam cem) da escada que levava até a secretaria enquanto pensava: “Eu era feliz e não sabia, minha carona que falhava na quarta-feira era um problema tão pequeno”. Mas, em nome da liberdade foi procurar os seus direitos, resolveu que não ia se calar; dirigiu-se a secretaria e pediu o protocolo de revisão de faltas, que claro, custava R$ 5,00, então, para cumprir o seu dever moral dirigiu-se para a secretaria robótica e bradou:
- Gostaria de registrar uma reclamação!
Sem dizer palavra a secretária deu a Penélope um protocolo de reclamações, que custava R$ 5,00.
Dirigindo-se a tesouraria ela descartou o último protocolo no lixo, pagou com nota de R$ 50,00 seus protocolos. Dos seus R$ 35,00 de troco, gastou R$ 5,00 num sorvete, na esperança de adoçar sua noite amarga, mais R$ 3,00 num refrigerante bem gelado, para ver seu sua cabeça esfriava, depois pagou mais R$ 20,00 no táxi que a levou para casa e esqueceu R$ 7,00 para serem lavados no bolso de sua calça jeans.
Disse ela ao encontrar esse dinheiro, seco e dobradinho no bolso, uma semana depois, que doía menos os R$ 7,00 perdidos no bolso do que R$ 5,00 “investidos” num protocolo.